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Defender a saúde das crianças alérgicas

2015-05-08
A saúde é imprescindível para uma vida feliz nas diversas vertentes, especialmente durante a infância, porque a criança é um ser em permanente desenvolvimento. Um dos objetivos da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica (SPAP) é defender a saúde das crianças e adolescentes com problemas imuno-alergológicos, através da troca de conhecimentos científicos e colaboração ativa com as entidades responsáveis pela saúde.

Em entrevista, o Dr. Libério Ribeiro, pediatra e presidente da SPAP, indicou vários pormenores da 4.ª edição do Congresso da SPAP, que decorre nos dias 8 e 9 de maio, em Monte Real. 

News Farma (NF) – Vai ser organizada a 4.ª edição do Congresso da SPAP. Poderia traçar um balanço das três edições já realizadas?

Dr. Libério Ribeiro (LR) – Embora a Sociedade complete quatro anos, não nos podemos esquecer que resulta da Secção de Imunoalergologia Pediátrica da Sociedade Portuguesa de Pediatria, fundada em 1985, havendo por isso um trabalho desenvolvido durante três décadas, revascularizado pela constituição da Sociedade. A SPAP é uma sociedade científica, com sensibilidade relativamente aos aspetos clínicos da doença imunoalergológica e a todas as questões importantes no meio da Imunoalergologia. 

Nestes últimos quatro anos é notório o aumento do número de participantes, assim como o interesse em apresentar trabalhos e em colaborar na formação de grupos de trabalho para desenvolver outras ações. Este ano, por exemplo, no âmbito do Dia Mundial da Asma que é assinalado no dia 5 de maio, vamos organizar em diversas escolas do País uma ação de sensibilização sobre a problemática da asma na escola, com elucidação dos professores, em particular os de Educação Física, dos auxiliares de educação, das próprias crianças e eventualmente dos pais que manifestem interesse. 

NF – Qual a importância de abordar este tema nas escolas?

LR – Vamos tentar alertar a população escolar para a problemática relacionada com a asma, porque infelizmente ainda há um subdiagnóstico e implicitamente um subtratamento desta doença. Não nos podemos esquecer que cerca de 1/3 da vida da criança é passada na escola. Além disso, muitas vezes, as crianças asmáticas acabam por ser relegadas para segundo plano, particularmente ao nível das atividades físicas, ao serem dispensadas dessa atividade. Acontece que uma criança com asma, devidamente tratada e controlada, pode fazer tudo o que os seus pares fazem, pelo que queremos passar essa mensagem. Aproveitamos a ocasião para distribuir um pequeno livro com diversos assuntos sobre a doença, tais como fatores desencadeantes da asma, principais sintomas, forma como começam as manifestações, tratamento, prevenção, como agir numa situação de crise, entre outros.

NF – Qual o objetivo principal da SPAP ao organizar esta ação no meio escolar? 

LR – Pretendemos adaptar a escola ao alérgico, ou seja, tornar as escolas mais “amigas da asma”, pois muitas vezes têm infraestruturas e determinadas características que são prejudiciais ao aluno asmático, por condições adversas a este e com fatores desencadeantes de crises, tais como salas mal arejadas, existência de animais domésticos, plantas na sala de aula, limpeza recente da sala com cheiros ativos aos produtos utilizados, etc.

NF – A asma é inevitavelmente uma das doenças alérgicas que integram o programa científico do Congresso. O que gostaria de destacar sobre esta doença?

LR – Atualmente não existe nada de novo, quer ao nível do diagnóstico, quer em termos de terapêutica. Existem, porém, novas formulações de medicamentos. Neste encontro, vai ser apresentada uma nova associação de um corticoide tópico com um broncodilatador de longa ação. Também resolvemos dar especial destaque à imunoterapia específica, com um Curso, dado ser aceite que esta terapêutica é a única que pode alterar a história natural da doença alérgica.

NF – Que outros temas do programa científico gostaria de destacar?

LR – Tentamos fazer um ponto de evolução da situação nas diversas áreas da Imunoalergologia e damos importância não só à alergia, mas também às imunodeficiências e, neste sentido, contamos com a intervenção da Prof.ª Magda Carneiro Sampaio, que aborda dois temas muito importantes: o timo, um órgão negligenciado/função, desenvolvimento e doenças e a imunodeficiência da imaturidade/resposta imune normal da criança de baixa idade. Algumas imunodeficiências manifestam-se nos primeiros meses de vida, sendo necessária a referenciação para centros adequados, de forma que o diagnóstico seja feito o mais precocemente possível, pois existem implicações no desenvolvimento e esperança de vida da criança com este tipo de patologia. 

Ao nos referirmos às doenças alérgicas, cada vez mais falamos em doença alérgica sistémica, que tem manifestações em diversos órgãos, muitas vezes, em simultâneo. Refiro-me à denominada marcha alérgica, em que as primeiras manifestações da alergia são do foro gastrointestinal, sendo a principal causada pelas proteínas do leite de vaca, no lactente, no primeiro contacto com o leite que não o materno. Frequentemente, as manifestações gastrointestinais acabam por ter expressão cutânea (urticária e eczema). 

À medida que a criança cresce vai havendo uma alteração, ou seja, as alergias alimentares vão dando lugar às alergias respiratórias (rinite, conjuntivite, asma, etc.). Assim, tentamos abordar não só a asma, embora lhe seja dado enfoque especial, mas também a rinite, a alergia ocular, o eczema, a urticária e o choque anafilático.

Também vamos abordar as novidades existentes ao nível dos alergénios moleculares, na conferência do Dr. Joan Bartra, que falará sobre novos alergeneos na alergia a alimentos de origem vegetal.

Incluímos no programa, a dificuldade em diagnosticar a asma nos primeiros anos de vida e tentamos abordar a importância dos marcadores da função respiratória, que permitam prever quais as crianças sibilantes que já têm ou podem vir a desenvolver asma. 

Há ainda uma sessão sobre a orientação e educação na doença alérgica, sendo especialmente dirigida aos médicos de família, pelo que serão dadas orientações sobre o que devem pedir e quando devem referenciar um doente para um centro da especialidade.

Aproveitando as ótimas relações que temos com a Sociedade Espanhola de Imunoalergologia Clínica, Alergologia e Asma Pediátrica (SEICAP), à semelhança do que fizemos nos últimos dois congressos, vamos realizar uma sessão luso-espanhola, onde serão apresentados os resultados preliminares de um estudo, o CIBAL – Consenso Ibérico de Alergia ao Leite, que vai ser difundido na Península Ibérica e que vai constituir uma ferramenta de trabalho e uma uniformização das práticas sobre a prevenção, diagnóstico e tratamento da alergia às proteínas do leite de vaca. 

NF – O I Curso de Formação em Imunoterapia é uma novidade neste encontro. O que é esperado desta ação de formação?

LR – Este curso pré-congresso surgiu porque vários sócios demonstraram interesse no desenvolvimento desta temática. Além disso, sou defensor desta terapêutica, reconhecida pela OMS desde 1998 como a única capaz de alterar a história natural da doença alérgica, como anteriormente referi. Nas últimas décadas, a imunoterapia, que já tem mais de 100 anos, teve um grande desenvolvimento, permitindo aumentar a sua eficácia e diminuir os seus efeitos secundários.

NF – No geral, quais as expectativas que deposita no Congresso da SPAP?

LR – Boas expectativas. Além da vertente científica, habitualmente o Congresso tem uma vertente social e cultural. À semelhança do concerto realizado no ano passado, na Capela do Bom Jesus, vai ser realizado um concerto de piano e violoncelo, dividido em duas partes, uma antes, e outra depois do jantar do Congresso.

As pausas entre as sessões também serão aproveitadas pelos participantes para troca de experiências, dificuldades encontradas nos seus locais de trabalho, informações e dialogarem sobre variados temas. Este encontro tem igualmente a finalidade de prestigiar a Sociedade e afirmá-la como parceiro ativo na resolução dos problemas da criança alérgica, até porque faz parte dos nossos estatutos sermos uma voz ativa na defesa do interesse da criança alérgica, no sentido de estabelecer caminhos, quer para a prevenção, quer para o diagnóstico, quer para o tratamento das doenças alérgicas. Em suma, pretendemos advogar pelos legítimos e superiores interesses da criança alérgica.
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